terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ato consumado?

Postado por MissHachi7 às 00:53
  Ah, a queda livre. Que sensação. O vento sacudindo meu vestido, tornando-o uma visão etérea, batendo, frio, no meu rosto, despertando um misto de horror e delícia... O medo de altura que, segundos antes, prendia-me ao chão, não era nada, comparado à perspectiva do impacto, também me puxando em sua direção. Meus gritos, instintivos, ecoavam em meu ser, naquele instante preenchido apenas por um pensamento: "Fiz bem em pular.".
  Na manhã daquele mesmo dia, conversando com Bernardo (o único amigo que já tive), comentei sobre minha falta de planos. Seria patológica? Jovens como eu costumam ter suas mentes ululantes de vontades, desejos, projetos... já a minha estava repleta com um gélido "nada" desde a morte do meu outro eu (havia um ano - acidente de carro; só eu sobrevivi, e éramos cinco lá. Entre os que não resistiram, meu amor, meu futuro, meus sonhos: Dan). Em minha reclamação, ambos podíamos ouvir a sugestão implícita: suicídio. Colocar fim em uma existência vazia. Bernardo prolongou sua visita até tarde. Bebemos até quase não podermos mais conversar. Ao ir embora, ele estava mais uma vez fazendo o que sempre fizera, desde que nos tornamos amigos: apoiando minha decisão.
  Em meu apartamento, no oitavo andar, comecei a observar o ambiente em que costumava viver. Não era um reflexo de mim; se fosse, estaria de cabeça para baixo. Não era meu lar - "assim como esse mundo", pensei. Contrariada, fui até meu quarto inexpressivo, vesti meu longo preto - que eu usara na noite em que presenciei a morte dos meus sonhos. Ele parecia feito de fumaça, e seus rasgos o tornavam o símbolo perfeito. Perfumei todo meu corpo, um perfume extremamente doce, para que minha trajetória final rescendesse a mim e a fim.
  Fui até a janela da área de serviço. Lá embaixo, o enorme poço artesiano parecia me esperar de braços abertos. Sua tampa fora retirada e havia cones de sinalização fluorescentes ao redor. De onde eu estava, parecia um caleidoscópio pouco convidativo. "Oito andares é uma altura fatal?", ponderei mais uma vez. Valia a pena? "Não tenho nenhuma vontade de melhorar ou de começar minha vida novamente. Bernardo ficará bem (provavelmente eu é que sentirei sua falta quando chegar ao inferno). Meus sonhos estão enterrados com Dan.".
  Deixei meu corpo inclinar-se para fora, e o tecido escorregadio do vestido ajudou-me a cair, rumo ao fim, onde finalmente me juntaria ao meu futuro, que se fora um ano antes de mim. A escuridão do poço cobre a luz da lua. O alívio da libertação é substituído pelo frio súbito, somado à voz de Bernardo:
 - Hachi?

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