segunda-feira, 14 de maio de 2012

"Eu juiz de mim..."

Postado por MissHachi7 às 20:34

     Temos em nós a consciência de nossa ambivalência (leia-se, sabemos que não somos puramente bons nem puramente maus, apenas uma batida com tudo isso, e percebemos momentos de tendências à bondade ou à maldade – dependendo de quanto as pessoas ao nosso redor nos infernizam), e na aferência de nossos valores, sentimos por vezes o impasse causado pelo enfrentamento dessas valências ("eu gostaria muito de fazê-lo morder essa calçada e chutar sua nuca, mas isso é errado, eu não gostaria que fizessem isso comigo"). Não nos dissociamos nessas duas "personalidades" - e aqui, "nós" quer dizer "pessoas não-multipolares" - e, mesmo assim, sentimos que uma gladiatura se dá em nosso interior.
     Quando procuramos estudar o criticismo kantiano (e nem me pergunte por que faríamos isso) verificamos a necessidade pressuposta de que haja uma terceira pessoa neutra para julgar processos gerados entre dois indivíduos. Essa filosofia é a pragmática aplicada (pelo menos teoricamente) nos tribunais. No entanto, Kant tratou apenas das relações interpessoais; durante a aula de Filosofia, provoquei dores de cabeça questionando insistentemente sobre quais seriam os métodos passíveis de aplicação quando no intento de julgar a mim mesma. 
     A noção de que necessitamos de confrontamento de ideias para que possamos ampliar horizontes e conceber por nós mesmos a distinção entre o apropriado e o nem tanto (entre pedir licença e chutar alguém que está no seu caminho, cumprimentar a professora de didática ou mandá-la catar coquinhos), parte da existência de alguém que nos clareie a visão sem o maniqueísmo do certo e errado explícitos.
     Se não podemos fazer surgir uma terceira "personalidade" que se porte de forma neutra, não podemos nos adequar sozinhos. Não existe julgamento meu feito por mim. As conclusões a que já chegamos sobre nossas próprias atitudes são apenas vitórias de batalhas - a serem recomeçadas assim que os valores derrubados consigam se reerguer e voltar à luta. A paz que reina só dura, de acordo com Kant, até que o que foi descartado como inválido e falso volte à tona; assim, não há paz absoluta. 
     Seria necessário que conseguisse uma pessoa que, do lado de fora, ouvisse os nossos dois "lados" (um psicólogo? terapeuta?), e nos permitisse chegar, a partir de observações imparciais, à consciência de nossas múltiplas valências e por nós mesmos decidir que "parte" está com a razão. E assim, com o aval da razão, poderemos ter paz. 
     Na minha opinião, o distanciamento consciente da consciência em si é um tento difícil (ainda não me aventurei), mas possível. A própria análise do que seria a consciência não teria sido iniciada, não fosse o fato de algumas pessoas concordarem com essa possibilidade. Os argumentos contrários são eloquentes, e não tenho como refutá-los por completo ainda... No entanto, acredito firmemente na capacidade do indivíduo de colocar-se como sua própria bússola moral. 
     Obviamente, estou apenas reconhecendo uma potência, então não venham os afoitos dizer que eu descrevi um ato. Minha observação é apenas mais uma das que tentam lembrar-nos de que, se nos conformamos em ser o quanto nos julgam capazes, estamos nos limitando por vontade própria. Só um lembrete. De leve.


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