quarta-feira, 25 de julho de 2012

Diversão

Postado por MissHachi7 às 20:05

Quando me dizem que vamos sair para nos divertir muito, eu já fico desconfiada. Afinal, “diversão” é algo que muda muito dependendo dos seus parâmetros, e quando se trata da minha família e eu, é quase como se fossem conceitos diferentes. No dia a que me refiro, a grande aventura era ir até uma fazenda meio abandonada onde corre um rio estreito sob uma ponte. E aí eu pensei, ah, legal, vamos atravessar a ponte e chegar do outro lado. Mas não. Contornamos umas [muitas] árvores cheias de espinhos e chegamos a mais árvores com espinhos. E a idéia do meu pai era que a gente atravessasse as árvores, chegasse a um barranco e descesse até o rio por ele.
Pensei comigo: se tem espinhos e um abismo entre algum lugar e eu, pra que eu vou querer ir até lá? Deus não fez esse caminho pra ser atravessado. Mas quando questionei isso, ninguém me deu ouvidos, e lá fomos nós. As árvores até que foram fáceis, afinal, se você não liga de ter seu rosto picotado e arranhado, não é nada demais. Mas chegamos ao barranco. Céus.
Devo dizer, antes, que todos aqui em casa são muito flexíveis, muito atléticos. Cada um faz um esporte diferente: dança, ginástica rítmica, basquete, etc. Todos têm muita habilidade para esse tipo de coisa. E eu não. Aí foram todos, meus irmãos, meu pai [que ajudou minha mãe a descer, porque cavalheirismo é da época dele], e eu não fui. “Nem pensar, eu fico aqui vendo se não tem ninguém vindo...”. Mas no meio da minha birra, eu e meu peso pena levamos o barranco a desmoronar. E lá fomos nós, terra, pedras, minha dignidade e eu, rolando até a margem do rio. Eu destruí o barranco! Eu modifiquei a paisagem natural!
Apesar daquela parte onde caí não ter água corrente, meus pés afundaram naquela lama nojenta. Por mim, a cota de diversão já acabara ali, mas não, minha família queria atravessar a porcaria do rio.  Quando encontramos um lugar que dava pé e começamos a travessia, uma abelha picou minha mão, que começou a inchar. Aquele passeio já não estava mais sendo divertido [meus irmãos riam de mim], mas eu tenho muita paciência. Atravessamos e ao chegar do outro lado, onde havia outro barranco! Só que agora tínhamos que subir, pra chegar ao carro.
Os pestinhas foram rápidos, como sempre. Meu pai foi e puxou minha mãe. E eu cruzei os braços e me sentei no chão [o que me fez afundar, também...]. Não ia tentar escalar, imagina! Quero dizer, concordemos, na descida todo santo devia ajudar, e comigo nem na descida. Quanto mais na subida! Já fiz um estrago na natureza do lado de lá, então me recusava a demolir qualquer outra construção dela. Todo mundo estava ficando irritado comigo. Eu fui bem clara: “Prefiro ficar aqui e morrer com essa mão infeccionada!”.  Eu ia seguir o curso do rio até... sei lá, parar no mar? Viver dos peixes que eu pescasse usando meus brincos?
Todos consideraram as hipóteses. Mas concluíram que alguém ia acabar notando se eles voltassem com um filho a menos para casa [ainda mais um volumoso]. Então decidiram procurar algum ponto da margem onde eu pudesse subir sem risco de vida. Acharam uma árvore caída que servia de ponte entre os dois níveis. Assim que eu coloquei a mão nela para me apoiar, formigas subiram em mim e começaram a me picar. Eu tentei ser mais rápida, mas escorreguei e caí, quebrando o tronco em mil pedaços, de onde saíram mais formigas, que estavam por toda parte de mim, e me picavam...
Foda-se a natureza, fiz um esforço desumano pra escalar o barranco [que quis desmoronar também, mas eu fui mais desesperada], sapateei até me livrar das formigas, entrei no carro e fechei as portas. Eu estava coberta de terra, com lama até os tornozelos, com picadas pelo corpo todo, cansada e molhada.
- Vamos atravessar de volta, Aline? – meu pai riu, do lado de fora.
- NEM MORTA!
“Diversão pra família toda não existe”.

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