segunda-feira, 2 de julho de 2012

Medo de medo

Postado por MissHachi7 às 23:23
          Já era a terceira vez que ela fugia. Sem recados, sem notas coladas na geladeira ou mensagem rápida no celular. A mãe nem se preocupou. O pai fez a gentileza de mostrar que nem percebera. Os irmãos, apreensivos, quase pensaram em procurá-la, mas logo decidiram que estava tudo bem. Os amigos ficaram com preguiça de segui-la de novo.
         Ela sempre ia pro mesmo lugar, e não se importava com a falta de interesse dos outros. Era a melhor sensação do mundo, existir sem que ninguém se importasse. Quase tão bom quanto comer chocolate sem ter medo de que peçam um pedaço, ou tomar banho com a porta aberta sem medo de que alguém a veja. Na verdade, era exatamente isso: podia estar ali sem medos. 
        Sabia que sair de casa daquele jeito não era certo. Mas ultimamente precisava muito estar longe de todas as situações que a amedrontavam. E em geral, viver com pessoas implicava estar sempre com medo. Medos bobos e medos gigantes. Estar sozinha não ajudava tanto a acabar com a sensação de que estava sendo o tempo todo avaliada e reprovada. Mas sumia com todos que a avaliavam e reprovavam, e era o suficiente por alguns dias. 
         Quando voltasse, sabia que encontraria tudo de novo. Sabia que todos estariam olhando pra ela ainda mais negativamente, e isso era desanimador. O que poderia fazer? Nunca mais voltar? Tentador. E mesmo assim, ela sabia que fugir não era a resposta certa. Era um alívio, era libertador. Prometeu a si mesma que não faria isso novamente. Torceu para conseguir cumprir a promessa. 
        Ao entrar em casa, cumprimentou a mãe, que não olhou. Chamou os irmãos, mas ninguém respondia. Tentou até mesmo acordar o pai, mas não obteve sucesso. No caminho para o próprio quarto, passou por um espelho, e algo chamou sua atenção. Voltou e parou estarrecida. Seu olhar foi até o fundo da imagem, e arrepios percorreram sua espinha para cima e para baixo. Não havia reflexo.
        A consciência da inversão a encantou. Agora ela não existia, literalmente, para ninguém. Não era necessário fingir que não haviam pessoas no planeta. Ela mesma já não estava lá. Nunca mais precisaria se esconder, nem fugir. Esse pico de feliciade a fez gargalhar, e ela correu entre as pessoas da casa e da rua sem temer julgamentos nem reprimendas. No fim do dia, cansada de todo o estardalhaço silencioso e inofensivo que produzira, deitou-se no meio da calçada em que se encontrava e decidiu que aquele era um jeito muito agradável de se passar o tempo.
        De repente sentiu vontade de contar para alguém sobre o quanto era livre e desimpedida. Mas não podia fazer isso. Ninguém podia ouvi-la, vê-la, julgá-la ou condená-la, dar os parabéns ou rir com a sua felicidade. E estar sozinha já não era mais tão bom quanto no começo. Não ter para onde voltar, idem.
         E eis que não havia a necessidade de medos. E isso era assustador.

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