sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Do lado de fora. De novo.

Postado por MissHachi7 às 20:19

Ficar trancada do lado de fora de casa é muito interessante. Não, tudo bem, eu não estou sendo irônica. No começo eu até ficava puta da vida, amaldiçoava todo mundo por me deixarem de fora, toda suja de terra e grama, machucada e cansada (porque é sempre quando estou voltando do treino). Mas ultimamente tenho usado o tempo livre para filosofar um pouco.
Aproveitei para ler “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera (muito bom, recomendo a todos que estejam precisando abrir a cabeça para uns horizontes diferentes, mais verticais e paradoxais. Eu não estava precisando, mas adorei), e para conhecer alguns vizinhos, que ficaram meio assustados de me verem encostada no portão por algumas horas, sozinha e descalça. Sempre é interessante pensar no que eles vêem do lado de lá, né? Devia parecer uma sem-teto louca.
                E eu estava pensando no quanto uma droga de cadeado me separou de tanta coisa. Quer dizer, é óbvio, eu sei, mas nunca tinha parado para refletir: minha sala, meu chuveiro, meu quarto, estava tudo ali, a poucos passos, mas tinha UM cadeado entre nós, e isso me mantinha do lado de fora. Eu podia VER tudo o que eu queria, mas estava tudo, na prática, longe pra caramba.
                E então eu fiquei com muita raiva daquele cadeado. O que aquela droga estava fazendo ali? Se eu fosse um ladrão, andaria com meu super machado e quebraria aquela porcariazinha com uma só mão. O cadeado não mantinha nenhum mal-intencionado longe da minha casa, só ME mantinha longe dela. E dessa raiva contra o cadeado explodiu uma raiva imensa de todas as coisas pequenas e hipócritas que eu já tinha instaladas na minha vida.
·         A maldita carteira de identidade, que significa antes da minha presença que eu existo.
·         A fronha do travesseiro, que só serve pra me dar o trabalho de trocá-la regularmente.
·         Peso para a porta, que só serve para massacrar meu dedinho do pé.
·         Meu dedinho do pé, que só serve pra acertar coisas duras e “pra crescer uma unha estranha”*.
·         A cabeceira da cama, que só serve pra eu bater a testa toda vez que vou dormir animada demais.
·         A última gaveta, que só serve pra me dar preguiça de agachar.
·         Aquele tanto de prateleiras que vêm com a geladeira, mas que não se encaixam em lugar nenhum lá dentro.
·         Todos os programas que vêm com o meu computador, mas que não servem pra porra nenhuma pra mim.
·         Espelhos. E nem vou começar.
                Eu sei que são revoltas inúteis, do tipo que não faz diferença nenhuma pra ninguém. E mesmo assim, são MINHAS revoltas, e enquanto não chegarem com a chave, vou continuar aqui pensando essas besteiras... Eu devia arranjar uma cópia...

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