quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Louca

Postado por MissHachi7 às 19:14

Manhã tediosa, escritório de advocacia. A porta se abre com violência e adentra uma figura peculiar. Luciana, vestida como se fosse para um baile de gala (“às nove da manhã?”), cabelos revoltos.
- Marcelo? - ela gritou, aparentando insanidade. Todos a encaravam, e não era para menos: ela toda era completamente improvável. Algumas pessoas ali deviam estar pensando “Tenho que trabalhar menos, estou vendo coisas”. Mas o drama dela era muito real, e sua dor a impelia a continuar - Só para constar: você não é NINGUÉM! Não me conhece tanto quanto pensa, não faz idéia sequer de metade do que eu já vi, ouvi e vivi! Não preciso da sua estúpida ajuda para enfrentar o mundo como você pensa que ele é. Não preciso de você!
“Por que ninguém chama a segurança?”, “Quem é essa louca?”, “Alguém, pelo amor de Deus, a faça parar com esse drama”. A mulher estava visivelmente alterada. Álcool? Drogas? Simplesmente um amor que não deu certo? Todos se entreolhavam, sem vontade ou coragem de tentar se aproximar dela. A maquiagem borrada sob os olhos, escorrendo arrastadas pelas lágrimas, a dificuldade em arrastar o vestido por entre as mesas, tudo inspirava pena; no entanto, ao mesmo tempo, a atitude agressiva e o olhar acusatório afastavam qualquer intenção de ajuda.
- Aonde é que ele está? Não o ajudem a se esconder. – ela continuava gritando. – Marcelo? MARCELO! Eu não vou pedir mais para você voltar para mim! – miou, com sua tristeza contagiando o ambiente. – Eu só quero contar o quanto estou lidando bem com tudo sem você! – sua voz tremia, e a energia com que adentrara o cômodo parecia ter sido drenada de seu corpo. Agora era só uma mulher tão triste que dava pena.
Alguns homens riram. Luciana, era visível, não estava lidando bem com nada. Era a imagem do desalento, da falta de sentido, do absurdo, da decadência. Uma mulher de alma menos endurecida levantou-se, abraçou-a pelos ombros com delicadeza, mas firmemente, e a tirou daquele lugar. Na sala de Xerox, conseguiu fazê-la beber água e tentou explicar: Marcelo havia pedido transferência havia quase dois meses. Estava em outro estado. Luciana estava fazendo papel de idiota. Seus nervos, já em petição de miséria, não suportavam mais nada.
- Mas ele disse que eu podia procurá-lo quando estivesse melhor! – soluçava. – O que eu faço? – Luciana agarrava os braços da única aliada. – Não tem nenhum motivo para eu estar tão bem, se ele não estiver aqui para comprovar. Como ele pode saber que eu superei tudo? – suas unhas cravaram mais forte, em desespero.
A pobre mulher, já arrependida do seu arroubo de caridade, sugeriu que ela voltasse para casa.
- Você não parece nada bem. Procure ajuda. Amigos. Psicólogos. Remédios. Esse Marcelo não merece sua... dedicação. – tentou. – Olha, ele te prometeu uma coisa, fez outra, largou você num estado mental discutível... – sob um olhar acusatório de Luciana, ela mudou de tom. – O que estou dizendo é que você devia prestar atenção no papel ridículo por que está passando por um cara idiota que não a merece.
- Ridículo? – ela piscou, sem entender.
- Pelo amor de Deus, você está com um longo vermelho cheio de cristais, de manhã, descabelada, com a maquiagem borrada, todo um drama... por alguém que já foi embora e não quer você! Falando seriamente, após pensar muito a sério, acha que ele está ao menos triste por não vê-la mais?
A triste louca pareceu vacilar por um instante. Encarou todo um vazio através do teto. Seus olhos saíram de foco e depois ficaram brilhantes, repletos de uma compreensão que a derrotou.
- Não mesmo. – fungou Luciana, afrouxando um pouco o aperto. – Era um perfeito filho da puta.
- Um perfeito filho da puta. – assentiu a outra, aliviada por ela estar parando com o choro e libertando-a.
- Mas era o MEU perfeito filho da puta. – Luciana baixou os olhos. Soltou-a, frouxa. O rosto inchado permitia inferir-se que devia ser muito bonita quando penteava o cabelo e não saía por aí gritando pelo namorado fugitivo. – Desculpe-me por todo esse espetáculo. Eu realmente só queria que ele pensasse que eu estava bem sem ele. – por um instante, pareceu que iria recomeçar o drama, mas engoliu as lágrimas, digna. – Ele me superou tão rápido. Talvez eu devesse tentar com mais dedicação... Buscar ajuda numa clínica especializada em corações partidos? Talvez mergulhar em aulas de canto... – seus olhos voltaram a ficar da mesma névoa de falta de razão, e ela sorria de uma forma que dava medo. – Viajar para a Itália, viver como cantora até o vinho acabar com minha voz, e então morar num pequeno apartamento cercada de calopsitas por todos os lados até a morte me levar...
A mulher já não estava mais ouvindo, estava fora da sala ligando para uma ambulância.

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