quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Abandonada, gatos e vinho

Postado por MissHachi7 às 14:48
"Pensando em todas aquelas memórias
Como seu toque era tão suave
Seus olhos, eles eram tão verdes
Eu nunca teria sabido o quanto
Você poderia vir a significar tudo para mim"

      Desliguei a música quando chegou nessa parte. Não precisava de ninguém me lembrando de toda a minha dor por ter sido abandonada, nem de toda a doçura do meu próprio passado. E foda-se o fato de a cantora não ter culpa da minha amargura. Toda música que trouxesse esse tipo de lembrança devia sumir, era o que eu achava. Arrastei minha dor, meu corpo e minhas roupas, que tocavam o chão, para o divã. Joguei-me no pobre móvel, e observei, meio caída sobre meu ombro, o rastro que deixei na poeira da sala.
      Ninguém me visitava havia semanas, e eu não me preocupava em limpar nada. Se eu não estivesse ali, diria que era uma casa abandonada. Os gatos sentados sobre a mesa de centro me encararam com rancor, julgando-me uma péssima mãe para eles. Mostrei a língua aos três. Se quisessem, poderiam limpar o que quisessem, eu estava muito bem.
      "Muito bem". Quanta hipocrisia. Tudo de que sempre tivera medo tornara-se realidade e eu afirmava estar bem. E afirmava AOS GATOS. Obviamente não estava nada bem. Mas no torpor etéreo que a tristeza (e talvez as garrafas de vinho) me proporcionavam, eu só alternava meu estado de espírito em duas fases: culpa e ódio. A culpa vinha sempre que a consciência permitia pensar no amor que fora embora por minha causa. O ódio, em ocasiões como aquela, em que tudo parecia conspirar para que me lembrasse disso.
      Músicas, pessoas, filmes... e agora meus gatos! Tudo me dizia: "vê o quanto você é falha? O quanto você é errada e estraga tudo?" Eles que fossem para o inferno. Já era ruim o suficiente ter a própria mente parada nas mesmas frases. "Foi bom enquanto durou, mas eu preciso de mais do que isso para ser feliz." E ele se foi. Como eu me deixara apaixonar por alguém tão inconstante? Como alguém assim prendeu meu coração, para começo de conversa? 
      Eu devo mesmo ser muito errada, pensava. Aposto que foram os estúpidos olhos verdes. Sempre soube que essa minha fraqueza por olhos verdes seria minha ruína. Por que ele se aproximou, se queria ir embora de qualquer maneira? Por que ele não me levou? Não. Esse pensamento não! E agarrei a garrafa aberta de vinho que estava no chão havia dias e bebi. Assim estava melhor. Quente por dentro. Como se tivesse acabado de abraçá-lo. Não! Não, mais vinho, que essas besteiras iriam embora.
      Os gatos miavam e eu chorava.

0 comentários:

Postar um comentário

 

Casa da Hachi Template by Ipietoon Blogger Template | Gadget Review