terça-feira, 16 de julho de 2013

Apesar de nós

Postado por MissHachi7 às 21:52

"Paixão é voltar antes mesmo de ir." - Fabrício Carpinejar

   O dia nem começara direito e já estávamos discutindo. E nem era algo necessário, difícil, que precisasse mesmo ser batalhado à exaustão. Na verdade, devia ser mais banal do que "você sempre aperta o tubo de pasta dental errado, seu ignorante abissal", ou "você lavou minha camisa branca com as outras coloridas de novo, sua vaca esquizóide".
   Não que não nos amássemos. Não que não nos amassássemos com vigor. Era só que a vida de casados estava matando mais amor do que tínhamos juntado em todo esse tempo em que estivéramos juntos. Três anos pareciam muito, pareciam o suficiente, fazia sentido que amarrássemos os trapos, juntássemos as vidas lazarentas e tentássemos ser felizes juntos, mais ou menos no mesmo ritmo. A questão é, não funcionamos no mesmo ritmo. Aliás, não temos ritmo, e talvez isso dificulte naturalmente as coisas. Em vez de um poder acompanhar o outro, era sempre um gritando com o outro. "Que porra é essa que você está fazendo?", era o que mais dizíamos.
   E naquele dia, levantamo-nos com a mesma predisposição pra brigar. Sem intenção de melhorar, nem de ajudar o outro a crescer. Coisa besta. Então parei de gritar por um momento. Aquilo era tão desnecessário. Nem prestei mais atenção nas pragas que ele me rogava, comecei a juntar minhas roupas (que não eram muitas, mas o ato em si causava impacto), e com a cabeça cheia de raiva muda, entrei no carro e dei partida na banheira.
  Era a terceira vez que tentava abandoná-lo. Quando finalmente consegui convencer nossa lata velha a funcionar, vi que ele estava me olhando do portão. Sua expressão. Aquele olhar me matava toda vez. Era uma mistura louca, mas conhecendo aquele cara como eu conhecia, era fácil identificar cada sentimento: a raiva por tê-lo deixado falando sozinho, o puta medo de que daquela vez eu realmente fosse e não voltasse, o desafio pra ver se eu iria mesmo, a tristeza por perceber que viver daquele jeito cansava. 
   Minha alma até se enrugou. Eu senti. Detestava ser a causa de tamanha confusão no coração dele. Caralho, ele me fazia mais feliz do que eu jamais fora, mas me dava mais trabalho do que eu pensava poder suportar. Fiz força para me lembrar do motivo pelo qual estava tão decidida a ir para longe. Mas só conseguia ouvir, muito alto na minha cabeça, as palavras da minha mãe: "o inferno que te cerca foi criado por você; aonde quer que vá, vai levá-lo com você". Ele não tinha culpa se eu era uma zona que andava. Nós dois tínhamos que conversar, que ver como melhorar a situação toda, em vez de simplesmente fingir que não havia conserto para nós. Tem tanto amor no meio, devia funcionar em algum momento, se trabalhássemos nisso.
   Ele não disse nada. Esperou onde estava, observando meu conflito embaraçoso. Com um movimento dos olhos, me chamou pra entrar. Com as lágrimas já escorrendo pela minha covardia, morrendo de saudade do homem que eu amava, desci do carro e corri pra ele. "Me desculpa", pedi. "Vai ficar tudo bem, eu te amo apesar de nós", ele sorriu entre meus cabelos. 
   E eu acreditei que ficaria tudo bem de verdade.

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