sábado, 13 de julho de 2013

Árduo

Postado por MissHachi7 às 08:44
   Estava sentada já havia algumas horas. Mia sempre fora uma pessoa irritantemente presa à rotina e à ética. Não saía um segundo mais cedo de seu horário no serviço, e isso me obrigara a esperar mais do que me sentia disposta. Apesar de ser uma mulher de meia idade solitária, ela me irritava constantemente com pensamentos de amizade e desejo de se relacionar a sério com alguém. Tinha gatos que rondavam a casa com o desinteresse característico da espécie. Nenhum deles olhou mais de uma vez para mim. Mia. Tem muitos gatos. Tragicômico. Mas para resumir: quieta, sozinha, pacífica, responsável, tediosa. Quer dizer, quem quer uma afilhada assim? Dava tanto trabalho.
   Eu basicamente tinha que fazer tudo! Ter as ideias, passá-las pra ela, esperar que ela entendesse, criar situações em que ela pudesse sentir raiva e por isso pra fora, sete infernos. O mais terrível que já conseguira foi que ela gritasse com um caixa do supermercado uma vez e atirasse as compras do outro lado do corredor, mas ela pediu tantas desculpas depois que quase chorei. Quarenta e três anos de puro trabalho, para praticamente nada.
   Mas enfim meu cansaço terminaria. Ela havia passado tanto tempo vivendo corretamente, aborrecidamente. O tempo dela acabara. Claro que não fazia muito sentido eu aparecer para buscá-la, mas creio que justiça não seja muito aplicável quando sou eu quem toma as decisões. O anjo dela não tinha que vigiá-la demais, e isso me deu muito espaço para trabalhar. Além do mais, Mia havia deixado de rezar havia muitos anos, e assim eu estava sempre por perto. Quase um apego, mas sem afeto. Eu fazia questão de ser quem a levaria de volta. 
   Ela chegara em casa tarde da noite, como de hábito. Eu a estava esperando na cozinha, com a luz apagada. Ao entrar, Mia assustou-se em me ver. Claro, não foi surpresa para mim. Quando alguém mora sozinha há anos, acostuma-se a ser recebida friamente pela solidão - e não espera encontrar uma mulher desconhecida, no escuro, em sua casa. Ri por ela deixar a bolsa, as sacolas, tudo cair no chão. Levantei-me para ir chutar algumas coisas e aumentar a bagunça, mas fui empurrada para trás com firmeza.
- Fica longe! -  estava alarmada e eu podia sentir pelo tom de voz que seu medo era bem maior do que ela gostaria. Ela me reconhecia aos poucos, de pesadelos e pensamentos obscuros, e isso só piorava seu estado. Isso me fez rir ainda mais alto. Afastei-me o suficiente para alcançar o interruptor.
   Acendi a luz e sorri para seus olhos assustados. Ver o medo de alguém que me causou tanta dor de cabeça é um prazer de que não me esqueço e de que não abro mão.
- Boa noite, Mia. Não faço questão alguma de fingir ter prazer em encontrá-la em pessoa. Eu sou seu demônio de guarda. 
   Ela leva a mão ao peito. Foi fácil. Tem um infarto e morre. Seus gatos cercam o cadáver, numa demonstração inédita de afeto. Pego a alma pela mão. Adoro meu trabalho.

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