domingo, 4 de janeiro de 2015

Babá meio emo

Postado por MissHachi7 às 23:38
Quando eu era criança, minha mãe precisou arrumar babás para cuidar do meu irmão e de mim, porque éramos muito ativos e levemente maldosos um com o outro, e ela precisava manter os dois vivos enquanto trabalhava. Por muito tempo eu tive uma babá muito carinhosa e de quem eu gostava muito, mas quando ela parou de trabalhar lá em casa, mamãe teve que passar pelo ingrato processo de seleção, em que cada babá passava uns poucos dias conosco, como teste.


E eu me lembro vividamente de uma em particular... A mocinha era bonita, morena, alta [mas porra, eu tinha seis/sete anos, pra mim todo mundo era alto], e viu televisão com a gente numa boa até descobrir que eu tinha tarefa, então trouxe meu irmão e eu para a sala e me pediu pra pegar os cadernos. A tarefa era fazer capas coloridas para todos os meus cadernos (o tipo de atividade inútil a que as crianças são obrigadas até hoje). 
Minha grande preguiça de viver e eu imploramos à mocinha que me ajudasse a fazer pelo menos a capa de um caderno, e como meu esquema argumentativo sempre foi surpreendente, ela concordou. Eu me concentrei em desenhar borboletas e flores [não por achar fofo, mas por ser mais fácil e ocupar mais rápido o espaço], colorir tudo e fazer espirais pra preencher os vazios mais eficientemente. Quando fui olhar o que ela tinha feito no meu caderno de português, fiquei no mínimo impressionada.



Ela fez um coração muito bonitinho, mas desenhou uma faca atravessando ele, com sangue pingando, e puxou um balãozinho onde se lia "nunca fira um coração, você pode estar dentro dele". Ela também quis preencher os espaços vazios, só que fez isso desenhando arame farpado, e ocasionais corações dependurados nele. Eu, que nunca tinha visto nada igual, achei o máximo, e pedi pra ela fazer a capa de outro. No de geografia, ela também fez algo parecido, mas era com outra frase, de que não me lembro.
Depois de terminarmos, ela nos deu lanche, fez tranças no meu cabelo, escovamos os dentes, ela ajudou o Álisson, que tinha três ou quatro anos, e foi nos colocar pra dormir. Eu pedi pra ela contar uma história... bom, não se pode negar que ela tivesse boa vontade.

A moça nos contou a história de Romeu e Julieta. 
Com encenações dos suicídios, e declamando as frases mais dramáticas à la cabeça dela mesmo [lembro dela dizer algo como "tu não deixaste nenhuma gota para mim, ó"].

E nós dois ficamos de olhos arregalados, eu particularmente fiquei chocada com o amor e a vida, e ela apagou a luz. 
Acho que foi a primeira vez que empurrei minha cama pra perto da do Álisson pra não dormir sozinha, de medo.

PS: quando mamãe achou meus cadernos, colou desenhos de flores e borboletas em cima dos corações ensaguentados e enforcados e não me lembro da mocinha meio gótica ter voltado. 

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